Tarifa verde e tarifa azul são as duas modalidades horárias de cobrança da energia para empresas do Grupo A. Na verde, a empresa contrata um único valor de demanda para o dia inteiro e paga caro por cada kWh consumido no horário de ponta. Na azul, contrata dois valores de demanda — um para a ponta e outro para o fora de ponta — e o kWh da ponta sai mais barato. Em regra, a verde compensa para quem usa pouca energia da rede na ponta, e a azul para quem consome forte e de forma constante nesse horário. A decisão certa sai da conta com as suas faturas, não de uma regra de bolso.
Este guia explica quem pode escolher, como cada modalidade cobra, como encontrar o ponto de equilíbrio entre as duas e o que muda quando a empresa instala energia solar ou armazenamento. Para entender primeiro o conceito de ponta e fora de ponta, veja o artigo sobre tarifa horo-sazonal.
Quem pode escolher entre tarifa verde e azul
A escolha existe para unidades do Grupo A — conectadas em tensão igual ou superior a 2,3 kV. Pelo art. 220 da Resolução Normativa ANEEL nº 1.000/2021:
- Tensão de conexão menor que 69 kV (na prática, a maioria das indústrias, comércios e propriedades rurais atendidas em média tensão, subgrupos A4 e A3a): o consumidor escolhe entre verde e azul;
- Tensão igual ou maior que 69 kV: a modalidade azul é obrigatória;
- Unidade do Grupo A com opção de faturamento no Grupo B: segue as regras de baixa tensão, sem modalidade verde ou azul.
A troca de modalidade é feita a pedido do consumidor, desde que não tenha havido alteração nos 12 últimos ciclos de faturamento — ou a qualquer momento nos 3 ciclos seguintes à revisão tarifária da distribuidora (art. 221). Ou seja: dá para mudar, mas não dá para ficar trocando todo mês.
Como cada modalidade cobra
| Componente | Tarifa verde (art. 213) | Tarifa azul (art. 214) |
|---|---|---|
| Demanda (R$/kW) | Uma tarifa única, sem distinção de horário | Duas tarifas: ponta e fora de ponta |
| Consumo (R$/kWh) | Ponta e fora de ponta | Ponta e fora de ponta |
| Contrato de demanda | Um valor em kW | Dois valores em kW (ponta e fora de ponta) |
| Ultrapassagem | Apurada sobre o valor único | Apurada separadamente em cada posto |
| kWh no horário de ponta | Muito mais caro | Mais barato que na verde |
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A diferença essencial está no horário de ponta — as 3 horas consecutivas, em dias úteis, que cada distribuidora define conforme a curva de carga da sua região. Na azul, o custo de ter potência disponível na ponta é cobrado como demanda de ponta, em R$/kW. Na verde não existe demanda de ponta, então esse custo vai embutido no preço do kWh consumido na ponta. Por isso o kWh da ponta na verde costuma custar várias vezes o do fora de ponta.
Como encontrar o ponto de equilíbrio entre verde e azul
Uma forma simples de comparar é olhar só o que muda entre as duas modalidades: o custo da ponta. Fora da ponta, as tarifas de demanda e de consumo costumam ser iguais ou muito próximas nas duas — confira na tabela da sua distribuidora.
- Custo da ponta na verde = consumo na ponta (kWh) × tarifa de consumo na ponta da verde
- Custo da ponta na azul = demanda de ponta (kW) × tarifa de demanda na ponta + consumo na ponta (kWh) × tarifa de consumo na ponta da azul
Dividindo o consumo na ponta pela demanda de ponta, você tem as horas de uso da ponta no mês: quantas horas, em média, a empresa usou a potência máxima de ponta. Um mês tem por volta de 60 a 69 horas de ponta (3 horas por dia útil). O ponto de equilíbrio é:
Horas de equilíbrio = tarifa de demanda na ponta (azul) ÷ (tarifa de consumo na ponta da verde − tarifa de consumo na ponta da azul)
Se a empresa usa a ponta por mais horas do que o ponto de equilíbrio, a azul tende a sair mais barata. Se usa menos, a verde tende a ganhar.
Um exemplo com números hipotéticos, só para mostrar a mecânica: tarifa de demanda na ponta da azul de R$ 50/kW, kWh da ponta a R$ 1,80 na verde e a R$ 0,60 na azul. O equilíbrio fica em 50 ÷ (1,80 − 0,60) ≈ 42 horas. Uma operação que funciona a plena carga em todas as horas de ponta (cerca de 66 horas no mês) estaria melhor na azul. Um comércio que desliga quase tudo na ponta, na verde.
Tarifas hipotéticas, sem tributos. Os valores reais estão na resolução homologatória da sua distribuidora e mudam a cada reajuste — refaça a conta com eles e com as faturas dos últimos 12 meses.
Quando a tarifa verde costuma compensar
- Operações que param ou reduzem muito o consumo no horário de ponta (comércio que fecha cedo, indústria de um turno);
- Empresas que conseguem deslocar processos para fora da ponta;
- Unidades com picos de demanda em horários variados, em que contratar dois valores de demanda seria difícil de acertar;
- Empresas que já usam gerador ou armazenamento para cobrir a ponta.
Quando a tarifa azul costuma compensar
- Operações contínuas, com carga alta e estável também na ponta (indústria de três turnos, frigoríficos, hospitais, data centers);
- Empresas que não conseguem reduzir o consumo nesse horário;
- Unidades que precisam de muita potência fora da ponta, mas pouca na ponta — a azul permite contratar valores diferentes para cada posto.
O que muda com energia solar e armazenamento (BESS)
A geração solar acontece de dia, quase toda fora do horário de ponta. Ela reduz o consumo fora de ponta, mas mexe pouco no custo da ponta — que é justamente onde verde e azul se diferenciam.
Um sistema de armazenamento em baterias (BESS) muda essa equação: carrega fora da ponta, com a energia solar ou da rede, e descarrega na ponta. Na verde, cada kWh que a bateria entrega na ponta evita o kWh mais caro da fatura. Na azul, a bateria também reduz a demanda de ponta, que pode ser contratada em valor menor. Por isso, depois de instalar um BESS, a melhor modalidade pode mudar — a simulação precisa ser refeita com o novo perfil de consumo, respeitando a regra de troca a cada 12 ciclos. Veja como isso funciona no guia BESS C&I, no guia de peak shaving e no artigo sobre ultrapassagem de demanda.
“Tarifa verde para irrigação” não é a mesma coisa
No meio rural, é comum ouvir “tarifa verde” como apelido do desconto especial para irrigação e aquicultura em horário reservado, previsto no art. 186 da REN 1.000/2021. Esse é um benefício tarifário da classe rural, com percentuais que variam por região — e não a modalidade horária verde explicada aqui. Os dois podem coexistir na mesma unidade. O artigo energia solar e bateria para irrigação explica o desconto em detalhe.
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Perguntas frequentes
Qual a diferença entre tarifa verde e azul?
A verde tem uma tarifa única de demanda e cobra mais caro pelo kWh consumido na ponta. A azul tem tarifas de demanda separadas para ponta e fora de ponta, e o kWh da ponta é mais barato.
Qual é mais barata, a tarifa verde ou a azul?
Depende de quantas horas a empresa usa a potência máxima no horário de ponta. Poucas horas favorecem a verde; muitas horas favorecem a azul. A conta deve ser feita com as tarifas da sua distribuidora e o histórico de 12 meses.
Toda empresa do Grupo A pode escolher?
Não. Unidades conectadas em 69 kV ou mais ficam obrigatoriamente na azul. Abaixo de 69 kV, o consumidor escolhe (art. 220 da REN ANEEL nº 1.000/2021).
Quantas vezes posso mudar de modalidade?
A mudança a pedido exige que não tenha havido alteração nos 12 últimos ciclos de faturamento. Também é possível pedir nos 3 ciclos seguintes à revisão tarifária da distribuidora (art. 221).
O horário de ponta é o mesmo em todo o Brasil?
Não. São sempre 3 horas consecutivas em dias úteis, mas cada distribuidora define o intervalo com base na curva de carga da sua área, com aprovação da ANEEL. O horário aparece na fatura e no contrato.
Instalar BESS muda a melhor modalidade?
Pode mudar. A bateria reduz o consumo e a demanda na ponta, que são exatamente os itens que diferenciam verde e azul. Depois da instalação, vale refazer a simulação com o novo perfil.

